quarta-feira, setembro 23, 2009

Sophie fala


Quando soube que a exposição Cuide de Você, de Sophie Calle, além de São Paulo, viria a Salvador, fiquei agitada. Quem diria, a Terrinha no circuito de uma mostra desse porte. Novos tempos, esses. E ainda tem gente que acha bobagem ter curadora de nível internacional à frente de equipamento cultural na Bahia. Pois bem, não conhecia o trabalho da artista, mas fui lá fuçar o site a respeito. Um término de relacionamento por e-mail transformado em arte a partir da interpretação de diferentíssimas mulheres para a tal carta pós-moderna de desamor e desamarro. O burburinho que foi se criando espontânea e previamente por aqui - fui chamada por pelo menos três pessoas de diferentes círculos para ver a exposição - é um bom termômetro para o impacto que Sophie Calle pode causar. Nesta semana, quando finalmente a instalação se abre ao público baiano, com direito a uma palestra da ditacuja em carne-osso-e-evasivas, comprova a qualidade do trabalho e como ele mobiliza o imaginário do público.

Tive a oportunidade de estar presente na palestra de Sophie, realizada terça-feira no Teatro Vila Velha, da qual muita gente infelizmente ficou de fora porque a capacidade das plateias dos espaços de Salvador é oito ou oitenta (ou melhor, 200 ou 1.500). O que vi foi uma persona que ao mesmo tempo fascina e irrita, fazendo absoluta questão de manter sua aura de artista excêntrica, mas com o respaldo de três décadas de trabalho provocante e belo. No palco falando de sua história, apresentando suas realizações, Sophie Calle parece mais jovial e charmosa do que a figura que circula nos bastidores. E apesar de sua obra partir de experiências absolutamente subjetivas, chega a ser chata contra a espetacularização de seu trabalho, vetando filmagens, fotos e enrtevistas - para desespero dos assessores de comunicação e jornalistas que gravitam em torno de sua passagem.

Acostumada a se apresentar em muitos lugares e com um trabalho que é marcado pela participação de outras pessoas em sua materialização, Sophie 'implorou' - como ela mesma disse - para que a palestra seguisse um formato aberto o tempo todo, guiada pelas perguntas dos presentes. Se por um lado a participação é positiva, pois talvez evita que ela se repita em suas falas, por outro a insistência do público em repetir perguntas tentando arrancar o 'segredo' do trabalho e afirmações meio descabidas mesmo quando refutadas acaba comprometendo a qualidade do conteúdo.

Mas, o que diz Sophie Calle, afinal? Uma de suas afirmações provocadoras é de que se tornou artista para seduzir o pai, que era colecionador de arte. Disse que queria conquistar seu próprio lugar na parede do velho - com bom humor, contou que conseguiu.

Não é exagero acreditar que a principal inquietação provocada pelo trabalho de Sophie seja a curiosidade por encontrar a linha que separa a experiência pessoal e umbiguista da artista do resultado de seu trabalho. Afinal, é no mínimo contraditório que ela afirme que suas obras não são de ordem terapêutica, uma vez que partem de lugares como a perseguição obsessiva de pessoas na busca de uma motivação para o próprio cotidiano, como registrar pessoas dormindo em sua cama, um rompimento amoroso e até mesmo a morte da própria mãe.

Ela faz questão de dizer que sua abordagem dos temas é mais sensual, intuitiva e sentimental do que intelectual, o que a torna também uma espécie de escrava do próprio estilo - "faço somente aquilo que sei fazer", refere-se ao contínuo uso de vídeo, imagem e texto. A respeito do olhar acadêmico, crítico e reflexivo, ela desdenha: "não vivo da maneira como eles falam de mim".

Nos trabalhos que teve oportunidade de apresentar durante a palestra, o eixo de Sophie parece ser a tentativa de reconstituição imaginária de um objeto, pessoa ou relação a partir de sua ausência. Uma de suas obras reúne fotografias de quartos de hotel quando são desocupados - ou 'abandonados', como ela coloca. Essas imagens, com rastros deixados pelos ocupantes, fazem referência ao fato de pessoas dormirem na mesma cama sem jamais terem se conhecido, nem mesmo se visto. Somente o quarto deixado para trás é testemunha dessa relação ausente.

O mesmo ocorre em outra instalação, em que o espaço deixado na parede de um museu por um quadro que foi emprestado recebe um 'quebra-cabeça' descritivo formado por objetos e intervenções feitas por quem conhecia o quadro, como funcionários do museu. Esse 'fantasma' do quadro ausente motiva a obra.

O tempero de Sophie Calle é sua recusa a dar maiores explicações, ao mesmo tempo em que instiga questionamentos. Ela provoca situações e a partir delas conta histórias, diz que já fez projetos "apesar de si mesma", ou conta que foi ao Japão porque não gostava do país, uma vez queria honrar o investimento em uma bolsa de estudos, então não podia se divertir. E assim, o tempo todo ela despista, brinca com o que é ordinário e tornado fascinante, joga ao fazer questão de demarcar separação entre vida pessoal e obra de arte. "De tanto contar o que aconteceu comigo, me distancio do que aconteceu", e assim, ao repetir suas histórias, relativiza os fatos e se alheia a eles, é o máximo que esclarece. E instila mais doses de veneno na curiosidade humana, que persegue os sinais do que é criação ou realidade objetiva.

Apreciar ou não o trabalho desta francesa é como uma questão de fé. Ambos os argumentos, contra (ela faz uma exploração banal do seu cotidiano) ou a favor (ela ultrapassa suas vivências pessoais e aborda questões universais), podem parecer igualmente válidos a depender do ponto de vista. E a sensação que tive é que ela, como um bom palhaço, quer mais é ver o circo pegar fogo. Assim, suas obras seguem lançando lenha na fogueira dos debates sobre arte na contemporaneidade.

E no meio de tudo isso, ainda reserva para o final de sua fala uma dose de loucura e poesia. Ela registrou em vídeo os últimos momentos de vida da mãe, que estava inválida e da qual ela não podia (ou não queria?) estar próxima. Seu olhar se concentrou nos 12 últimos minutos em que paira a dúvida sobre a fronteira enrte os mundos. Então, conta que a mãe sempre desejou conhecer o Pólo Norte, mas não teve oportunidade. Após sua morte, Sophie foi até lá e enterrou sob uma camada de gelo um diamante bruto guardado há décadas como um amuleto de sua família.

Em tempo: fui também na abertura de Cuide de você, que segue até novembro no MAM-BA. Independente do conceito, o resultado estético da instalação é belíssimo. Talvez ela queira nos lembrar que às vezes é só isso que importa afinal. (ou não)